Sabe aquele livro infantil que mexe com a gente? Esse é O Protesto. Ele traz tantas reflexões sobre o que nós, humanos, estamos fazendo com a natureza que é impossível não parar para pensar na força que ele tem.
Nessa entrevista com a autora Eduarda Lima, falamos um pouco sobre o processo de construção do livro e sobre como podemos trabalhar o tema Sustentabilidade a partir dele.
O livro foi publicado originalmente pela Edições Orfeu Negro (Portugal), e no Brasil foi publicado pela editora Pequena Zahar.
De onde surgiu a inspiração para falar com crianças sobre os impactos do homem no meio ambiente?
Tenho uma filha pequena, que tem agora 6 anos, mas quando comecei o livro ela tinha 4. Sempre usei álbuns ilustrados para abordar vários temas com ela. É uma das melhores maneiras de partilhar conhecimentos, ensinar, suscitar perguntas, tudo à volta de um livro, de desenhos, de palavras, e de um momento íntimo de conversa entre filha e mãe. O tema do impacto dos humanos no meio ambiente é algo que me preocupa há muito tempo e está, hoje em dia, também muito presente no contexto escolar das crianças. Mas não deixa de ser um tema difícil e complexo, e achei desafiante e importante para mim tentar abordá-lo num livro para crianças muito pequenas.
Como foi trabalhada a ideia de um protesto silencioso, como vemos no livro?
Normalmente associamos o som à vida e a um ambiente saudável. Se formos dar um passeio pela natureza e não ouvirmos pássaros ou insectos, é sinal de que algo não está certo e que não há vida por ali. Por outro lado, os seres humanos criam tanto ruído, barulho e destruição à sua volta, que ficamos incapazes de sentir o mundo em redor e até de nos ouvirmos uns aos outros. Às vezes, o silêncio, por contraste, ‘fala mais alto’, e de repente começamos a prestar atenção. Há bastantes exemplos de protestos silenciosos na história do activismo político e social. Por isso, a ideia de um protesto no reino animal em que todos param de fazer o que sempre fizeram e o que é esperado deles, nasceu também dessa reflexão sobre o silêncio e o poder que ele tem de fazer ‘soar’ o alarme e de nos forçar a ‘ouvir’!
A ideia de união também é forte no livro. Como podemos trabalhar isso com as crianças?
A união e a solidariedade são conceitos ou valores muito importantes e que se devem transmitir às crianças desde bem cedo. É também fundamental mostrar de que maneira estamos todos interligados e que na verdade o planeta é um só sistema. O que afecta uns acabará por afectar todos, e não há problemas que nos sejam alheios, mesmo que estejam fisicamente distantes. Para mim era essencial passar esta mensagem, encadeando os sucessivos protestos, uns após outros, entre espécies e habitats diferentes, até finalmente chegar às crianças, em efeito de bola de neve. Queria evidenciar, por um lado, esta interdependência e, por outro, sugerir também alguma cumplicidade e sublinhar o facto de que teremos que agir em conjunto para mudarmos o estado das coisas. Penso que se podem trabalhar estes dois aspectos com este álbum e colocar perguntas às crianças sobre as ligações que podem descobrir entre as sucessivas situações ao longo da estória, sobre as motivações por trás do alastramento do protesto até que adquire uma escala global.
O que as crianças têm a nos ensinar sobre sustentabilidade?
Penso que as crianças são muito mais pragmáticas e consistentes do que os adultos, no que toca a rotinas e a comportamentos sustentáveis no dia-a-dia. Quando elas aprendem o que é correcto fazer para proteger o planeta (reciclar, não desperdiçar, respeitar os animais), não há qualquer vacilação ou lugar para ambiguidades – fazem-no e pronto. É simples, é obvio e vem do coração. Devíamos aprender isso com elas e deixar de arranjar desculpas para não mudar o que está errado!



